o que lá não está

Ver o que lá não está é uma arte. Uma arte com uma longa tradição, com suas leis não escritas e seus inúmeros praticantes, uns mais profissionais do que outros, desde humildes pastorinhos errando por ermos e grutas até senhores engravatados e doutorados errando pelos seus próprios erros. E o “lá” onde se podem ver as coisas que lá não estão, esse está por todo o lado. Na política, na religião, na cartomancia, quase por definição. Mas também em sítios muito mais inesperados. Ainda há pouco li a notícia de uma senhora da televisão que viu Nossa Senhora nuns sapatos de 490 euros! E explicitou o preço, não fôssemos nós pensar que a Senhora lhe aparecia nuns quaisquer tamancos.
Mas se há campo onde a arte de ver-o-que-lá-não-está prospera e tem inúmeros cultores e fiéis, é o campo da arte. Desde quando em tempos remotos alguém nos explicou que aquilo que vemos não passa de uma sombra da realidade projetada no fundo da caverna onde vivemos começou também a nossa dedicação à arte de ver-o-que-lá-não-está, a ver pelas sombras que lá estão a realidade que lá não está. E foi muito o que aprendemos desde então. Aquilo que vemos, o que temos diante dos olhos, só aparentemente é claro ou compreensível, ao que nos dizem: na verdade o seu real sentido só poderá surgir depois de devidamente desvendado por quem sabe. Seja o intérprete de sonhos, seja o sumo sacerdote, seja o crítico literário autorizado, são eles que vão rebuscar os sentidos ocultos do poema, do texto, do criptograma que é a literatura em geral.
Dirá a Sulamita do Cântico dos Cânticos: “Como são doces as tuas carícias / Os teus lábios destilam doçura, ó minha noiva; / há mel e leite sob a tua língua…” – e no nosso ingénuo entendimento as palavras dela só podem significar o que ela está a dizer. É o que lá está. Mas há de sempre vir o Exegeta e explicar-nos o que lá não está: que o poema erótico que nós lá víamos é na verdade “o principal veículo para exprimir uma antiga concepção bíblica da experiência religiosa, sobretudo como uma relação amorosa com Deus.”
O que lemos em Kafka, para dar outro exemplo, é apenas o sentido expresso, esse que nós entendemos, que esconde o mais importante, o que nos é negado, o seu sentido latente, e, esse, só acessível à arte de ver-o-que-lá-não-está.
Deixamos de ler o poema que o poeta escreveu, o texto que o escritor escreveu, para tentarmos decifrar o que eles não escreveram. E o que se diz da literatura pode dizer-se de outras artes. Quantas vezes não nos interrogamos, ao ler a crítica de alguns filmes, se teremos visto o mesmo filme. Na música então nem se fala…
Tratando-se de uma canção, ou de uma ópera, ainda vá que não vá, as palavras apesar de tudo dizem alguma coisa a que não é fácil torcer o sentido. Mas quando não é assim? Quando a música é o que se ouve, é tudo o que há? Mesmo assim, haverá quem se negue ao simples, ao puro prazer de ouvir, de sentir, para procurar antes “um sentido” para a música, que porém é só música e não outra coisa qualquer.
Lembro-me de uns programas que havia na televisão dos tempos a preto e branco em que o grande maestro Leonard Bernstein “explicava”, “ensinava”, as criancinhas a ouvir música. Lembro-me (e já lá vão umas boas décadas!) do programa em que ele transformava a abertura do Gulherme Tell numa cavalgadas desenfreada em que o xerife perseguia o bandido, e que mestre Bernstein ia ilustrando com os adequados movimentos da música. Nunca mais consegui ouvir o bom do Rossini sem ouvir o malfadado xerife aos tiros por ali fora. Se calhar a mesma sina que acometeu os miúdos (e graúdos) que em Portugal “aprenderam” a ouvir a música dita clássica à custa das cábulas que lhe impingiram com uma série chamada “Brincando aos Clássicos”. Com as melhores intenções do mundo, servia-se aos miúdos uns quantos enlatados de Mozart, Beethoven, Offenbach e sei lá quem mais, embrulhados em canções enternecidamente didáticas que definitivamente roubavam à música o seu mistério, a sua inteireza inicial e pura. Provavelmente muitos desses meninos, que mais tarde dirão talvez que “nasceram para a música” graças a esses discos, nunca mais conseguirão ouvir a belíssima sonata para piano nº 11 em lá maior de Mozart sem que se lhe sobreponha iniludivelmente a letra infame de um “Zás trás pás, com a espada / já venço sete malvados!” e outras barbaridades que dão cabo do Mozart em três movimentos.

Faz-me pena pensar nisso. E sei que é difícil resistir à tentação de querer ver aqui “o muito que têm de positivo” tantas boas intenções. Resisto à tentação, mesmo assim. Com tantas boas intenções, o que se dá com uma mão, está-se a negar com todas as outras mãos que temos de ter se quisermos dar – realmente dar – alguma coisa parecida com a descoberta do prazer da música a quem não aprendeu ainda a ver nas coisas o que lá não está.
Digo isto enquanto ouço a belíssima música de um compositor tunisino, Anouar Brahem, de seu nome. Neste caso, uma combinação de alaúde, piano e acordeão, tão surpreendente, como surpreendente é a maravilha que daí resulta. E é com muitas hesitações que deixo aqui o título do disco – “Le pas du chat noir” – só pelo medo de que ao ouvi-lo desatem para aí a imaginar passinhos delicados de gatinhos felpudos, ou enigmáticos, ou, sei lá, poéticos, e outras coisas que lá não estão. E que seria a maneira mais segura de fechar os ouvidos ao que lá está.

One thought on “o que lá não está

  1. Un text tan ple de matisos que he tingut la temptació -i la sort- de poder llegir-lo en català. i he escoltat la música. Gràcies, Zé.

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