E a piscina, pá?

já lá vamos, à piscina, mas primeiro preciso de dar uma voltinha aqui por um outro assunto que fica a meio caminho.
Uma das coisas que mais falta faz entre nós, concluí eu ao voltar de uma ausência de vários anos por outras terras, é a vocação para atuarmos coletivamente. Protestamos, refilamos, repontamos, mas normalmente ficamo-nos por aí. Há um problema a resolver ou um projeto, cria-se um grupo e como primeira tarefa desata-se logo a ver como se há de arranjar financiamento para aguentar a coisa. Sem lugar para a ideia de as pessoas se quotizarem para pagar as despesas – para pagar o maestro, se um coral; o treinador, se um grupo de ioga; o mestre se um grupo de observação de aves, etc etc. Sem fundos, o grupo acaba por ir ao fundo. E não se fala mais nisso. Ou então nem se chega à fase da organização. São boas ideias que por aí se ficam. Muitas das movimentações que por cá se lançaram nestes últimos tempos vieram-nos de fora. E por isso mesmo pouco duraram. Por falta de raízes. Movimentos como erupções intensas, emotivas, às vezes até com algum grau de violência ou de disrupção, mobilizando milhares e milhares de pessoas em estruturas espontâneas e com sistemas de organização extremamente maleáveis, em resposta a problemas ou anseios sentidos por essas pessoas. Assim que me lembre, do pé para a mão, temos as greves climáticas (nascido da greve de uma menina sueca de poucos anos), os movimentos anti-racistas (black lives matter, por exemplo), os gilets jaunes, em França, ocupy wall street em Nova Iorque, movimentos de solidariedade com outros povos (Ucrânia, Palestina) e outros de todas as cores e para todas as tendências. As réplicas dessas erupções nem sempre se fazem sentir noutros quadrantes ou quando isso acontece depressa definham por se parecerem mais com uma moda surgida da imitação, do que como resposta a uma necessidade real.
Quando procuramos as razões dessa falta de “vitalidade cívica”, como diz o nosso bom povo, normalmente vamos dar à prolongada ditadura salazarista que cortava ou punia a iniciativa popular espontânea, incutindo ao mesmo tempo na grei um espírito de desconfiança em tudo o que não viesse de cima. Desconfiança (ou falta de confiança em nós) que ainda não nos largou. E este “cima” tanto pode ser o estado e a burocracia oficial como os partidos e outras organizações de massas que tendem a controlar e a usar de forma instrumental as movimentações mais espontâneas.
Aqui no meu bairro, para não ir buscar um exemplo mais longe, iniciou-se há tempos uma pequena movimentação para pedir a abertura (reabertura) das duas únicas piscina públicas que temos por perto. Falo de piscinas, mas já se sabe que o exemplo se pode multiplicar por muitas mais coisas em falta. E talvez mais importantes. Muita boa gente, mas sobretudo muitas crianças, estão há uma data de tempo sem piscinas e sem aulas de natação por razões que nunca tiveram nenhuma explicação razoável (porque o empreiteiro não sei quê, porque as obras afinal não sei quantos; enfim, trapalhadas de um lado e desculpas mal paridas do outro). Houve uma reunião no jardim. Sintomaticamente a maior parte dos participantes eram estrangeiros (se calhar por não sofrerem da mesma maleita anti-associativa). Houve uma manifestação, uma ida à Assembleia Municipal, tudo o que se podia fazer sem ser a ocupação das instalações da Junta ou da Câmara.
E as “autoridades”? Os nossos eleitos?
Os nossos eleitos são feitos à nossa imagem e semelhança, essa é que é essa. E nada do que não dê direito a foguetório, a celebrações, a contratos financiados pela Europa ou quem lhe faça as vezes, também não lhes merece mais do que as evasivas, as meias explicações ou o mui digno silêncio dos Eleitos. Neste caso, passado mais de um ano, continuamos sem resposta e sem piscina. A nossa boa gente, habituadíssima a ser assim tratada, se calhar já se desabituou do luxo das piscinas públicas e talvez que todos – sem Índias e Áfricas e oceanos a chamar por nós – comecemos também a duvidar da utilidade de aprender a nadar. Não há mais a quem pedir contas e já só as paredes se lembram de tal coisa.

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