nos tempos bíblicos, tudo isto era bem mais simples. Se a humanidade descarrilava e começava por aí a fazer asneiras, Deus falava com o profeta que na altura estivesse em funções e dizia-lhe para avisar o pessoal que ou ganhava juízo e fazia o que Ele mandava ou vinha aí um castigo de todo o tamanho (Somorra e os afogados do Dilúvio que o digam). Que também podia ser a pura e simples extinção da Humanidade para começar de novo da estaca zero. Eram tempos em que os homens não duvidavam dos avisos que lhe eram mandados. Baixavam as orelhas e faziam (nem sempre, mas quase sempre) o que os Profetas lhe diziam.
Nada disso é assim, nos nossos dias.
Profetas não nos faltam: ele são os cientistas, ele são os ativistas climáticos, ele a ONU, a Nasa, a UE, e por aí fora… E não faltam catástrofes a confirmar os avisos: são incêndios, são inundações, são tufões, é o degelo polar. Mas qual quê? Enquanto não houver uma nuvem de gafanhotos a cobrir o céu de Lisboa numa forma que quiser, bem podem falar eles (os profetas da desgraça). Enquanto não houver por aí um braço misterioso que pela calada da noite roube a vida a todos os primogénitos coitadinhos, não há praga que nos convença da necessidade de renunciar ao sossego e ao conforto que nos assegura a queima continuada de combustíveis fósseis. Se bem que as coisas começam a andar lá por perto. Não é que ainda esta semana os cientistas nos advertiram que as mortes causadas pelo aumento de temperatura do planeta (sem contar as mortes causadas pelas catástrofes climáticas) aumentaram em 30%?
Deus não precisava de grande precisão de números e de cálculos. Era omnisciente. Se Ele dizia que era assim, é porque era assim. Hoje apenas podemos contar com A Ciência e tudo fia mais fino. E mais complexo. No caso de que falo, o aviso vem-nos dos investigadores da Organização Meteorológica Mundial e os do Programa Copernicus da União Europeia. E esses sabem do que falam. O Copernicus dedica-se à “observação da Terra” e reúne dados da Agência espacial, dos satélites Sentinel, encarregados de reunir dados relacionados com a Terra, o mar, a atmosfera, as alterações climáticas, etc. E conta ainda com inúmeras antenas em universidades, autoridades públicas, e uma data de édecetras participantes. A Terra não dá um espirro sem que o Copernicus não o saiba. E pelo vistos o espirro já passou ao grau de sintomas mais sérios. E começa a chegar à nossa rica saúde!
E então agora são os médicos a entrar ao barulho. Um exemplo: o Journal of Ethics da Associação Médica Americana publicou recentemente um artigo (Why Climate Literacy Is Health Literacy) chamando a atenção para o imperativo ético de ajudar as pessoas a compreender a informação sobre alterações climáticas e os seus efeitos sobre a saúde. Para poderem agir com conhecimento de causa e poderem mudar o que se pode mudar. Um estilo de vida “rico em carbono” reflete-se naquilo que comemos, onde moramos, o que vestimos, a frequência com que andamos de avião (tantas vezes desnecessariamente), as distâncias que percorremos de carro (às vezes bem curtas e que podiam fazer-se de outro modo), o que vestimos e de um modo geral o que consumimos. E, como se sabe, quando as decisões são más o corpo é que paga.
O problema, porém, (outro problema) é que os sistemas de saúde – refiro-me sobretudo aos dos países de democracias avançadas, que é uma maneira simpática de pôr as coisas – não estão preparados para responder a uma situação como a das crises induzidas pelo aquecimento global. São sistemas focados sobretudo naquilo que poderíamos designar como “medicina de socorro imediato”, de assistência individual, digamos assim, em vez de se centrarem nas questões de saúde pública que abrangem toda a gente. Resulta daí o obscurecimento generalizado das determinantes sociais da saúde, as que têm a ver com a educação, o emprego, a nutrição, a habitação e outros fatores estruturais e culturais. Pessoas que vivem em áreas pobres, com poucas oportunidades educacionais, com acesso limitado a uma alimentação adequada, a habitação decente, vivem menos tempo e apresentam uma taxa de mortalidade mais elevada. Se a pele deles for um pouco mais escura, negra ou castanha, acresce uma boa dose de racismo implícito nos canais de acesso aos cuidados de saúde. E, como já se adivinha, com as profundas desigualdades que lhes estão associadas. Um sistema de saúde centrado na medicalização dos cuidados de saúde acaba por beneficiar prevalentemente a pequena proporção de doenças em que se especializou a medicina moderna, mais ocupada em curar do que em prevenir. As razões para esta orientação são múltiplas – diz o jornal de bioética, que estou a aqui a ler: Por um lado, os grandes centros e clínicas médicas são também onde estão os empregos de saúde e, por outro lado, o fascínio cultural que rodeia a ideia de “salvar pessoas por métodos clínicos” tornou a medicina tipo “oficina de reparações” a preocupação central da medicina clínica.
Os factos são estes. O que fazemos com eles é outra conversa. Ou sequer se os queremos conhecer. Nem saberia dizer se os cientistas seriam mais ouvidos no caso de entrarem em rebelião, e se desatassem a pintar os números fatais nas fachadas dos ministérios, ou desatassem a travar a circulação rodoviária para mostrar aos incréus todo o resto que pode ficar travado um dia destes. Às tantas, vai-se a ver, ainda eram detidos, presos e julgados por desobediência à autoridade, se não coisas piores. E estamos falados.
Mas, antes de ir pregar para outra freguesia, só mais uma coisinha. Já vi que está aí alguém mortinho por saber como é que dei por mim a interessar-me por questões de medicina, de biomédica e de saúde em geral, eu que de medicina só sei aquele pouco que cada louco sabe, tirando uma ou outra consulta ao Dr. Google, levado pelas queixas de uma hipocondria crónica. Pois fiquem a saber: o que li no tal jornal de bioética (e de que aqui falei), li-o num discreto blogue (de Rosalvo Almeida), que frequentemente fala de questões destas, sobretudo as questões de vida e de morte associadas à prática da medicina. Leio-o às vezes também em artigos no Público e gosto da forma como aborda as questões: árbitro imparcial no desafio que todos andamos por aqui a jogar, pronto a sacar implacável do apito diante de qualquer fora do jogo ou de grande penalidade seja de que equipa for. Fazem falta estes árbitros – whisteblowers, chamam os americanos a este tipo de sentinelas. Vale bem uma visita: https://rosalvoalmeida.blogspot.com/
obrigado Zé Lima, és um grande e exagerado Amigo! :-)
Já agora, deixo aqui a ligação para a tradução do artigo que citas, não vá os os teus leitores ficarem só pela leitura dos mais recentes postais https://rosalvoalmeida.blogspot.com/2024/02/literacia-climatica-e-literacia-em-saude.html
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