O Coiote fez 18 anos. Não é uma data qualquer. Para muita gente – e acho que também ele via assim a coisa – é uma espécie de marco que assinala a emancipação dos laços (leia-se das peias) da família e, diz quem sabe, a integração no grupo social, a aquisição do status de adulto. Há sociedades inclusive que marcam a data com cerimónias e rituais de iniciação emblemáticos E acho que também o Coiote, de certo modo, sentiu que havia que festejar o dia de uma maneira que não fosse simplesmente mudar a folha do calendário.
Nas sociedades tradicionais, os rituais incluíam uma data de coisas que hoje nos pareceriam gratuitas, bizarras, e até cruéis. Desde longas vigílias ao frio ou ao calor extremos, provas de resistência a torturas e castigos físicos, tatuagens simbólicas, escarificações no rosto ou noutras partes do corpo e, pelo menos para os machos, várias provas a mostrar a força, a potência, a virilidade exigidas pelo papel dos adultos nessas sociedades.
Não é o caso, obviamente. O Coiote já se contentava com uma g’anda festa com os membros da tribo, onde não houvesse lugar para pais nem outros adultos de controlo. O único problema era esse precisamente: como pôr os pais fora de casa e ficar dono do território, livre de regras e de limites.
Estamos na quaresma, e daí a ideia: porque não os impontar para Braga, para as solenidades da Semana Santa, suas soleníssimas procissões, seus farricocos e fogaréus? E como brinde visitavam a tia Lurdes, com seus rissois e frango guisado, suas compotas e doces vários. E ainda um passeio a Guimarães, restaurada, alindada e renovada e com chuva que não pára. E lá vou eu e a Cereja a cumprir a penitência. Só que… procissões nem vê-las, canceladas pelo mau tempo. Ninguém queria ver os Cristos agonizantes a correr pelas ruas inundadas nos seus magníficos andores, anjinhos mordomos e autoridades civis e militares a correr sem decoro, sem pompa e sem a gravidade cerimonial da praxe. Os farricocos, com menos compostura a defender, ainda palmilharam a cidade (de manhã) descalços, com aquele sinistro balandrau que os cobre da cabeça aos pés, só com uns buracos para os olhos, a agitar as matracas, esperando que o ruído estrepitoso que elas fazem pudesse convencer os bons cristãos a irem ao confesso e a prepararem a chegada do Senhor Ressuscitado. Este ano, nada disso. Nem Cristo foi dado por morto, nem foi enterrado na macabra Procissão do Enterro do Senhor que deveria percorrer a cidade, arrastando pelo chão os varais dos mordomos e dos pálios, único som a romper o silêncio da cidade às escuras, não fossem as risadas e a animação nas esplanadas dos turistas. Tudo isto para grande desânimo da meia Galiza que tinha invadido a cidade à espera da anunciadíssima encenação do santíssimo horror e agonia de Cristo.
Guimarães não nos saiu melhor: uma chuva persistente que nos roubou as exclamações de admiração e de louvor que haveria de nos merecer o centro reabilitado e renovado e restaurado por um daqueles fundos comunitários europeus que tornam qualquer cidade num brinquinho, sem lugar para janelas de alumínio ou portas que não obedeçam ao desenho protocolado, nem para quaisquer outras fantasias de proprietários menos adeptos do como-era-dantes. Tudo limpo, ordenado, impecável, ideal para postais ilustrados e para filmes de época. A pedir meças a Óbidos ou Bruges, quanto a mim. Quem aproveitou foi a Cereja: ficou a saber tudo sobre os bordados de Guimarães (a não confundir com os de Braga ou de Viana, apesar de exatamente iguais). Aqui é o bordado de crivo, o canotilho, o ponto pé de flor e outras minudências exemplificadas pela dona da loja onde fomos calhar (ou encalhar, porque a inundação lá fora assim implicava).
E, entretanto, o Coiote? Conhecendo-o como o conheço, a ele e à sua tribo, uns quarenta galfarros e galfarras, estava a vê-los a passar aqueles dois dias e noites em serena meditação sobre o sentido da vida e as responsabilidades que a maturidade traz consigo, entre jejuns e veladas de armas diante da imagem veneranda do Santo Condestável ou de outro Galaaz que melhor calhasse. Ou então não. Pode muito bem ser que em vez de vigílias e jejuns tenham passado o tempo em desbunda desbragada entre ganzas e música em altos berros, sustentados a massa de atum ou de salsichas, regada a cervejolas (jolas, no dialeto local) e sangria .
Antes isso, que não é todos os dias que se faz 18 anos.
E quando eu e a Cereja voltámos tínhamos a casa arrumada, a cheirar a lavada de fresco e um recado na porta à nossa espera.


Já fez 18 anos??!!! Parabéns para os pais!
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Viva o Coiote e vivam os pais dele!
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😀😍
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O Coiote passou a lobo.
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Zé Lima, és o maior! Sempre foste o melhor escriva da nossa geração e continuas! Abraço grane a ti, à Cereja e ao Coiote!!!
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