Antes do Dilúvio

Há coisas que leio que me dão a entender que haverá quem ande já a precaver-se (e a nós todos) de algum fim do mundo que por aí venha. São tantas as ameaças que pesam sobre nós e sobre o planeta que é mais que certo que há boas razões para esses alguéns tomarem tais precauções. Um pouco como a Arca que, no mito do Dilúvio, Noé construiu para pôr a salvo o que seria depois necessário para recomeçar o mundo que estava prestes a desaparecer.

Acho que todos conhecem a história: Em tempos que já lá vão, uns bons cinco séculos antes da nossa era, o iroso Deus da Bíblia “arrependeu-se de ter criado o homem cujos pensamentos e desejos tendiam sempre e unicamente para o mal”. Decidiu então eliminar da face da terra o ingrato que tinha criado. Abriu uma excepção para o bom do Seu servo Noé, que apesar de ir já nos seus seiscentos anos de vida (ou por causa disso mesmo) estava isento de tais pecados. Mandou-lhe então construir uma Arca de madeiras resinosas, com tais e tais medidas, e que nela embarcasse a família, os trapinhos e um casal de cada espécie de animais. Noé assim fez e logo “nesse dia se romperam todas as fontes do grande abismo e abriram-se as cataratas do céu”. Choveu torrencialmente durante quarenta dias sobre a Terra e as águas cobriram todas os altos montes existentes debaixo dos céus. Depois tudo iria recomeçar de novo.
Haverá alguma verdade no mito bíblico. A arqueologia, a paleontologia e o estudo da distribuição das espécies no planeta na era moderna parecem confirmar isso mesmo: que nessa época terá ocorrido um fenómeno com as caraterísticas descritas na Bíblia nessa zona do globo, ou mais precisamente na região da Mesopotâmia. Aliás, é o que nos conta também uma outra (belíssima!) narrativa, mais antiga, e que possivelmente serviu de base ou de inspiração ao autor do livro do Génesis da Bíblia: “A Epopeia de Gilgamesh”. Também aqui se fala num dilúvio, no aniquilamento da espécie humana, na construção de uma Arca com tais e tais medidas e conformação. De diferente, é que em vez do iracundo Iavé bíblico quem aqui decidiu o aniquilamento da humanidade foram os cinco deuses senhores das terras entre o Tigre e o Eufrates – Ea, Anu, Enlil, Ninurta, e Ennugi. Mas acontece que tal secreta decisão foi secretamente revelada por Ea a Utnapishtim, instando-o a construir a tal Arca antes que se abrissem as barreiras das grandes profundidades. Outra diferença: no mito mesopotâmico, a Arca deveria abrigar não só todas as espécies de animais domesticados e bravios, como também todos os artefactos e utensílios que o homem tinha criado, coisa de que Iavé não curou. Nem uns nem outro, porém, pensou em preservar as sementes de onde pudesse surgir um futuro Jardim do Éden.

Quem pensa nisso, já nos nossos tempos, é por exemplo o Sr. Raul Rodrigues, em Ponte do Lima, bem longe das paragens da Terra Prometida ou do atual Iraque. Sem se dar à canseira de construir Arca nenhuma, decidiu por sua mão começar a remendar o mundo que via desaparecer a olhos vistos. Começou pelas maçãs (se calhar por achar que algum dia alguma futura Eva iria precisar delas para recomeçar a história do princípio). Conheci-o numa reportagem de Edgardo Pacheco no jornal Público. Aí se conta que este professor da Escola Superior Agrária de Ponte do Lima se dedica no campo da escola a plantar ou enxertar as árvores que recolhe em passeios pelos campos, por terrenos abandonados, onde quer que ouça falar de maçãs que já não há. Já lá tem mais de cem variedades regionais. O repórter fala de maçãs como a maçã sangarinha, porta da loja, canela, perna de pisco, verdeal, camoesa verde, camoesa de Coura, de Lanheses, riscadinha da Feira, melápio, espriega e tantas outras que nos deixam a pensar no que andamos a perder.
Digam lá há quanto tempo não metem o dente numa bela maçã camoesa. Ou numa maçã da porta da loja. Ou numa maçã da boa vontade. Ou outras belas maçãs portuguesas como a maçã do caco, a maçã de espelho, a maçã de guerra, a maçã de pé comprido, a maçã de três em conca, a maçã do adro, a maçã galega, para me ficar por aqui. A invasão das golden delicious, ou das starking ou das granny smith ou das pink lady, vindas da Nova Zelândia, do Chile e sei lá de onde mais foi-nos roubando os sabores da variedade. Claro que são ideais para a produção em larga escala, e são extremamente rentáveis e têm o calibre exigido pelo mercado europeu e mundial, além de terem belas cores e de não saberem a nada. Mas, como pode acontecer às mais belas maçãs, têm também um bicho a roê-las: são muito mais frágeis e expostas a doenças que nem sempre é fácil debelar. Há epidemias vegetais que só podem ser combatidas através do recurso a espécies resistentes. No futuro a humanidade poderá vir a ter necessidade das plantas autóctones e das suas caraterísticas. E se nessa altura elas já não existirem?
Se calhar foi também nisso que pensou o Sr. Raul Rodrigues e, como ele, outros que tais no Centro de Experimentação Agrária de Tavira onde está reunida uma das maiores coleções de árvores de fruto do país, com um por assim dizer Banco Genético de centenas de variedades de espécies de fruteiras. Só de alfarrobeiras há 44 espécies. E há citrinos e castas de vinha, romãzeiras, amendoeiras, macieiras, recuperadas do sotavento ao barlavento algarvios, agora distribuídos pelos 29 hectares do Centro.

São muitas as maçãs (e as frutas) a desaparecer e poucos os “arqueólogos” a trazê-las à vida. O problema é que nada disto se faz sem fundos, como se adivinha. E os fundos públicos estão mais virados para as espécies com bons calibres e boas cores para o mercado. E como dar continuação ao estudo, à caraterização e à preservação deste material genético para as gerações futuras? Pois, lá está: apesar da boa vontade e da carolice de alguns, falta pessoal, faltam meios, faltam fundos e (sobretudo!) falta uma política nacional que nos prepare para o pequeno Dilúvio que as alterações climáticas já trazem na barriga. Sem Deus nenhum que nos dê aviso prévio e instruções precisas para a construção da Arca, somos nós que temos de pensar nisso.
Não sei se haverá muitos ministros a ler este blogue. Se calhar não. E é pena. Porque podia levar daqui algumas boas ideias. Enquanto ainda servem para alguma coisa. O Dilúvio que aí vem pode muito bem ser apenas o fim do mundo tal como o conhecemos E esse não desaparece; vai desaparecendo, vai-se extinguindo.
E é que não estou a ver Arca que nos valha.

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