E nós a ver navios…

Alguns dos que costumam ler estes desabafos têm-me dito que isto começa a ficar um bocadinho sombrio. Muita tragédia, muitos desastres, guerras, parece tudo pintado de negro. “Mas tu só pensas em desgraças, pá?”
É verdade. Ponho-me a ler o que está para trás e realmente…
Será porque ando longe das ilhas floridas onde toda a gente passa o tempo, cheias das alegrias reservadas aos posts do facebook. E que eu não frequento… O mundo chega-me cada vez mais pelos jornais e a internet e isso de certo modo carrega-lhe as cores… E também porque vou perdendo a inocência que antes me permitia ver as coisas como acontecimentos isolados, a pedir indignação, choque, protesto, mas que se ficava por aí. Como quem se fixa nos sintomas de um mal que intimamente não se quer conhecer, nem sequer nomear. Ainda com a inconfessada crença (utópica…) de que tudo irá ficar bem.
Aos poucos essa fé vai-se perdendo, e vamos ligando as coisas, os sintomas, e o que vemos passa a ser também um sinal daquilo que não vemos, ou do que não queremos ver. Acho que é um pouco isso… Deve ser isso. Ah, se não fosse a realidade, a “ralidade” do Manel Resende, “essa megera sem idade, [que] não tem tempo, e fronteiras, não tem lar”…

Acordo, vou à janela, para ver o rio, a cidade lá em baixo a espreguiçar-se, a preparar-se para o dia. Já que tenho Alfama, tenha também o proveito. Mas logo me surge, enorme, intrusivo, o casco sobranceiro de um daqueles navios de cruzeiro que diariamente se me impõem à vista. Maiores que um quarteirão de Alfama. E o problema é que agora já não me basta o barafustar. Fico também assustado. Para mim, agora, aquilo é mais do que um navio. É uma fábrica de dióxido de enxofre, óxidos de azoto, partículas ultrafinas vomitadas em plumas diáfanas pelos motores que mesmo atracados continuam em funcionamento para alimentarem o enorme consumo de energia da aldeia flutuante. Como aldeias inteiras que viajam de um lado para o outro, cada barco transportando três mil, até seis mil pessoas, para uma breve incursão de algumas horas em cada sítio onde aporta, para uma caça aos suvenires e aos pontos de interesse que aliás já viram no youtube e que o tripadvisor já lhes marcou como “a ver”.
São coisas que não dão para nos animar.
E depois não é só isso. Para mal dos meus pecados, sei agora que há cidades que só permitem a atracagem de barcos que possam ligar-se à eletricidade nos portos (que por isso mesmo dispõem de ligações adequadas. O que Lisboa não tem). Sei que Lisboa era há pouco a cidade europeia que mais cruzeiros recebeu por ano (115). Sei que eles são responsáveis por por um quinto das emissões de óxidos de azoto! E por 3,5 vezes mais emissões de enxofre do que todo o parque automóvel da cidade durante um ano!… Durante um ano inteiro!
O (meu) problema é esse: perdida a inocência que só nos pode vir de desconhecer coisas como estas, passamos a ver nelas também o que elas escondem. E as mais das vezes não é coisa boa.
Já me estragou o dia, o raio do navio.

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