o mês passado deu um fanico ao meu carro. Coisa grave, a exigir um transplante. Do motor ainda por cima. Não há por aí motores à mão de semear, de um modelo já fora de moda, ainda por cima. E foi assim que o meu carro – desfalecido, sem dar sinal de si – escapou ao limbo do abate irremediável e foi parar ao Paraíso, que é assim que chamam à Quinta do Carmo. O Paraíso da Sucata.
Já não era a primeira vez, há que dizer. Já tinha havido uns sinais percursores, umas coisas que “não iam passar” na inspeção e que tinham de ser substituídas e que a oficina “da marca” já não tinha e que não havia nada a fazer e que o melhor era dá-lo para abate. Eu é que ainda não estava preparado para me despedir do carro e queria procurar uma solução alternativa. Nem que tivesse de ir à bruxa.
Mas não cheguei a ir… Foi um dos tipos “da marca”, à socapa, discretamente, que me sugeriu tentar a Quinta do Carmo, para os lados da Portela. A ver se.
Lá fui e descobri o mundo insuspeitado de um manancial de peças de automóvel de todas as marcas, de todos os modelos e de todos os preços. E descobri ainda por cima o mecânico ideal para implantes, transplantes e até cuidados paliativos para todos os tipos de carros também. Nuno Paixão, de seu nome. E que no meio daquela sucatagem toda está apetrechado com tudo o que há de mais moderno, testes de diagnóstico, kits de tratamento informático. Tudo. Como “na marca”. Menos as meninas de mini-saia, os meninos engravatados e afáveis, os néons e os sofás, as oficinas resplandecentes que mais parecem consultórios médicos modernaços. Com os preços (upa, upa) a condizer, claro.
O Nuno Paixão lá resolveu o berbicacho, lá fez haver as peças que já não havia, lá levou o carro à inspeção e lá mo entregou pronto para outra. O que não demorou muito, como comecei por dizer. Um caso mais sério, desta vez: o tal transplante do motor. Motor esse que ele desencantou, não sei como. Nem quis saber onde encontrou ele o doador. Bastava-me saber que me custava menos do que um carro novo. Lá se fez o transplante. Agora era só rezar para que não houvesse rejeição, e que o sistema informático “reconhecesse” o novo coração do bicho. Reconheceu, sim senhor, mas com um ou outro tropeço: uns sensores que não respondiam, uma cablagem que não passava a mensagem… Mas acabou por ir tudo ao sítio. Com uns quantos acertos e afinações que me valeram uma enfiada de viagens à Quinta. Era já íntimo do Nuno Paixão. Dizia ele: se isto assim continua vamos ter de dar uma explicação à nossas mulheres.
Mas, ia eu a dizer, com esta série de visitas vi-me a dar a volta à Quinta, aos seus moradores e aos seus mistérios. Uma verdadeira aldeia dentro de outra, que aliás não é já aldeia nenhuma, antes uns arredores medonhos com uns prédios medonhos encastrados entre vias rápidas e saídas da cidade. Armazéns e hangares, barracões, cada qual exibindo a sua especialidade: peças de uma certa marca, a mesma peça declinada em todas as marcas e modelos possíveis, carros semi-desfeitos, órgãos esfacelados de carros quase irreconhecíveis. Não sei se viram o filme “Inteligência Artificial” do Spielberg. Há lá uma cena em que se vêem alguns andróides defeituosos a rebuscar um amontoado de peças soltas numa lixeira, restos de outros andróides rejeitados, à procura de sobresselentes para as partes que lhes faltavam. Foi o que me fez lembrar esta aldeia de sucateiros. O Paraíso da Sucata, realmente.
