anda agora por aí uma gente a falar nos “verdadeiros portugueses”, a clamar que os emigrantes envenenam a pureza do sangue português. O que, desde logo, num país que tem a maior taxa de emigração na Europa, já devia dar que pensar. Mas o que é pior é que há quem lhes dê ouvidos. Talvez os que se consideram como sendo esses tais “verdadeiros portugueses”. O que é uma coisa que me deixa um pouco baralhado, a mim, que poucas ou nenhumas certezas tenho sobre o meu direito a tal Denominação de Origem Certificada. E que nem sequer estou a ver como se há de medir o índice de tal pureza.
A certidão de nascimento de Portugal data de 1143, com o tratado de Zamora em que Afonso VII de Leão e Castela reconhece Portugal como reino independente. Os portugueses, porém, já há muito por cá andavam. Já nas suas veias corria o sangue de muitos povos que por cá tinham passado. Não só os lusitanos e outros iberos, também os túrdulos, os celtas, os galaicos, os góvios, os vetões. Quando andei na escola ensinavam-nos que por cá tinham andado vândalos, alanos, suevos, visigodos, todos eles nos deixando o seu legado de palavras, lendas e genes. Parece que mesmo gregos e fenícios. Sem falar nos romanos e nos mouros que cá se instalaram com mais demora. E de certeza que toda esta gente nos deixou mais do que algumas palavras, mais do que algumas alfaias agrícolas, algumas artes dos metais e da guerra. Além dos destinos que assim se cruzavam, de certeza que algo mais se cruzou também. E que disso ficaram sinais nos genes dos que por cá iam ficando, e que viriam a ser os tais portugueses. Nós.
E outros foram passando, e alguns ficando. O nosso primeiro rei é filho de um borgonhês. E herdeiro de um reino e de um legado genético onde certamente se reflete toda a história que lhe fica para trás. Nada na natureza é de geração espontânea. Todos nós temos ancestrais comuns e todos nos irmanamos nessa herança.
Falo por mim: o meu DNA conta uma história que me liga a uma herança muito distante da decantada “pureza” de que falam os “verdadeiros portugueses” que agora por aí se ouvem. Maioritariamente ibero, é certo, mas também com inúmeras “gotas” de sangue italiano (certamente romano), celta, francês, asquenaze, escandinavo, norte-africano e árabe.
Como sei isso? Sei porque fiz um teste genético. Não é que estivesse particularmente interessado no assunto, foi mais uma questão de curiosidade. A Rita participava num trabalho sobre genética e eu aceitei ser voluntário para o estudo. Todos cá em casa mandámos amostras da nossa saliva e daí a tempos recebemos o relatório. No meu caso como já disse bastante comprometedor para a “pureza portuguesa” das minhas origens. E como não sou evidentemente caso único, é muito provável que todos os que por cá andam tenham saído da mesma costela, mesmo sem remontar aos tempos do pai Adão.