o Jean Némar é que costuma dizer: “gosto tanto de estrangeiros como detesto turistas”. Assino por baixo. Realmente que diferentes eles são! E como é diferente a relação que têm com a cidade! Uns – bandos de gafanhotos vorazes, a percorrer a via sacra que lhes impõem os guias turísticos, a correr atrás de uma bandeirola que guia os grupos, a cheiricar cada estação do calvário, como mijadelas rápidas a marcar com um “visto” o território – nem nos dão tempo para lhes sabermos os nomes. Saem daqui sem ter falado com ninguém, sem ver nada que não tenham já visto em imagens e vídeos, sem surpresas. Verão talvez mais tarde, em casa, com mais vagar, nas fotos e vídeos que não páram de armazenar.
Nada a ver com os estrangeiros. As “muitas e desvairadas gentes” de que já o cronista falava, quando Lisboa começou a abrir-se ao mundo e a atrair gente das nações mais variadas, ou “desvairadas”, como se dizia no português antigo. Não turistas que aqui passam de corrida, mas gente que aqui mora e connosco partilha a cidade. Dá gosto vê-los, conhecê-los. Vivem ao nosso lado, mas há no modo desse viver um qualquer toque de diferente que nos ajuda a olhar as coisas também de modo diferente, como se finalmente nos fosse dado a ver um outro lado da realidade que sempre víramos pelo mesmo ângulo.
Ainda há pouco (no Verão) reparei nisso. Com a chegada do calor toda a gente pensava em praia e piscinas, sobretudo as crianças (e os pais das crianças, claríssimamente). Só que as três piscinas da vizinhança estavam todas fechadas: a da Penha de França, depois das obras, e depois das avarias, enfiou por uma enfiada de processos e recursos para “apurar responsabilidades” e lá continuava imprópria para consumo; a de Alfama fechada “por razões de segurança”; a do Casal Vistoso fechada por razões que a Câmara explicava cripticamente como “um conjunto de patologias que impedem a sua utilização no imediato”. Um imediato que dura há 3 anos. Convocaram-se os moradores para organizar um protesto: uma reunião em Santa Clara, com dia e hora aprazados. Fui lá ver como era. Haveria umas dez pessoas, quase todos estrangeiros – italianos, franceses, espanhóis. Portugueses éramos dois.
Lá está: uma diferente maneira de pegar na cidade. De passar da queixa ao protesto e à procura da solução. Nós, talvez habituados a nada esperar dos que nos governam (e governam como se a cidade fosse deles, só deles), limitados a ver as coisas acontecerem. Já eles, os desvairados estrangeiros, a querer fazer acontecer as coisas.
Já em tempos, há muito tempo, a Mary me tinha chamado a atenção para isso. Andávamos a pensar criar um coro, para cantarmos. Nas primeiras reuniões logo alguém propôs procurar apoios para pagar ao maestro. Dizia a Mary: “Não percebo. Vocês aqui quando querem fazer uma coisa a primeira coisa em que pensam é em arranjar subsídios. Na América, quando queremos fazer uma coisa, fazêmo-la. E pagámo-la com os nossos meios.”

Não sei porquê, talvez porque uns puxam os outros, há aqui na Graça muitos italianos. No movimento das piscinas também. A nossa porta-voz foi a Chiara. Foi ela que “falou ao povo” na concentração que se fez junto ao coreto. É também ela a alma da “Horta Comunitária” que se vai fazendo aos poucos num terreno vago de Alfama – o que resta de umas demolições que ali fizeram há tempos. (O que também quer dizer que, mais dia menos dia, a horta vai ter que enfrentar a dura realidade das escavadoras e da pressão imobiliária sobre um espaço “oh, tão bem situado”). E, lá está, quem vai à frente? Quem são os hortelões e hortelãs? Variados, com nomes tão “desvairados” como Chiara, Enora, Marie Hélène, Alex MacDonald. Francisca Fernandez, Will, Arnaud. Mas, não exageremos só para um lado, também Luísa, Rodrigo, Zé e outros, talvez menos desvairados, mas igualmente fiados de que no meio daqueles escombros e restos de tijolos é possível fazer crescer couves, tomates, favas, acelgas, espinafres, tudo alimentado por vários compostores que enchemos com os restos das nossas cozinhas. Agora há até oliveiras, uma figueira, muitas flores, ervas aromáticas. Lindo de se ver.