
Somos assim feitos: sempre à espera. A nossa amiga vai encontrar uma casa à sua medida. Ou vai finalmente chover no Algarve, a água vai voltar às fontes, a Constança vai poder regar a horta, vamos encontrar uma explicação para toda a desgraça que por aí vai, alguma coisa, que não sabemos o que será, acabará por apaziguar tanta desilusão. Ou mais comezinho ainda: o carro vai finalmente ser reparado, o carpinteiro, curado dos 4 dedos que perdeu no acidente, vai fazer a grade que lhe encomendámos, a máquina do café vai voltar como nova, o casaco vai estar à medida e vamos ser reembolsados. A vida recompõe-se. Somos assim: acreditamos que o que vem a seguir é que é. Vivemos por isso, para isso. Pelo menos por algum tempo.
Vemos o arco-íris, o eterno símbolo da esperança, e contra todas as nossas mais fundas convicções acreditamos e sorrimos. Vou à varanda, vejo o arco sobre as árvores do largo e o castelo ao fundo, e deixo-me convencer de que tudo vai mudar finalmente. Somos assim. E dizemo-lo continuamente em versos, em canções, em cartões de boas festas, a toda a hora e ocasião que nos sejam dadas para esconjurar os vagos medos e perigos que adivinhamos pairar sobre a nossa vidinha sem perigos nem medos.
Estava a ouvir o Bob Dylan (Hard times come again no more), uma canção já de há séculos e já há séculos se dizia o mesmo:
While we all sup sorrow with the poor
Let us pause in life’s pleasures and count its many tears
There’s a song that will linger forever in our ears
Oh, hard times, come again no more
Hard times, hard times, come again no more
‘Tis the song, the sigh of the weary
Many days you have lingered around my cabin door
Oh, hard times, come again no more